segunda-feira, 28 de março de 2016

Relato de um VBAC (parto normal após cesárea) ou Redenção e Renascimento

Relato de VBAC hospitalar

Tudo começou quando viajei para correr 21 km na serra gaúcha e minha filha mais velha falou para a minha mãe que tinha um neném na minha barriga, ela afirmou com tanta certeza que minha mãe me ligou brava perguntando se eu tinha ido correr na trilha grávida. Eu ri na hora, afinal, apesar de ter tido, uns dois meses antes, uma “visão” minha grávida durante um exercício de coaching, eu não planejava engravidar tão cedo. Minha mãe disse que a Maria Luiza passou o fim de semana todo falando do “irmão” que estava a caminho. Aí lembrei que tinha passado mal várias vezes durante a corrida, que durante um almoço eu repeti umas 3 vezes o pepino (eu não sou nem um pouco fã de pepino) e queria comer o cardápio inteiro do restaurante, fiquei com uma pulga atrás da orelha. Fiz as contas e realmente minha menstruação estava atrasada há dois dias, a pulga virou um elefante e resolvi fazer o teste de farmácia e lá estavam as duas linhas rosas bem fortes.

Na minha primeira gestação meu parto foi uma DESNEcesárea em que, apesar da recuperação física ter sido maravilhosa, a recuperação psicológica foi péssima. Então, passado o susto inicial (num próximo post falarei sobre gestação em momento de crise e depressão), a primeira coisa que falei foi “nessa vou ter parto normal e ponto final”, mais do que querer saber se era menina ou menino (eu realmente não me importava com o sexo e a Maria Luiza afirmava que era uma menina e que se chamaria Catarina) eu queria saber do meu parto. Ouvia sempre “Mas se a primeira foi cesárea e sua recuperação foi ótima, para que isso?” seguido de uma cara de pena que expressava “ahã coitada” e um comentário descrente “É deixa chegar mais perto e você vê”. Oi? Como assim? Não vou mudar de idéia, eu pensava.

Tive algumas intercorrências no início da gestação, fiquei de repouso até 13 semanas, depois tive um sangramento, mais repouso e cuidados, e acabei não conversando com o médico sobre o parto, porque o foco era manter a gestação. Assim que tudo se normalizou e eu já me aproximava da 20ª semana, em uma consulta falei para o médico que queria parto normal. Ele me disse que conversaríamos mais para frente, mas que não gostava da idéia de um VBAC. Falou que dias antes havia presenciado uma ruptura uterina com final trágico. Meu marido já me olhou com aquela cara de preocupação, eu insisti que queria pelo menos entrar em TP e se tivesse algum risco analisaríamos na hora e o médico falou que o problema era justamente entrar em trabalho de parto. Ali tive certeza que apesar de adorar o obstetra e de confiar na experiência dele, se eu quisesse ter um PN teria que procurar outro médico. Quis muito ir para uma obstetra humanizada, mas a situação financeira do momento não permitia de forma nenhuma; pensei num parto domiciliar planejado, mas meu marido não estava aberto a idéia; a casa de parto de São Sebastião não me aceitava por causa da cesárea prévia e a Casa de Parto da Humaniza é em Taguatinga muito longe da minha casa. Meu marido insistia que hospital era mais seguro (depois da chegada da Catarina ele reviu todos esses conceitos). Quando a família e/ou amigos não apoiam o parto domiciliar você faz do mesmo jeito, mas quando o marido não considera a opção, aí a história muda de figura. Hoje, sei que errei, deveria ter assistido vídeos com ele e ido nas rodas de gestantes, muito provavelmente nós dois teríamos ficados muito mais seguros e preparados para qualquer opção de parto, mas estávamos vivendo um período de tanta turbulência que não conseguimos focar no que deveria. De qualquer forma, acho que na vida algumas coisas acontecem como devem acontecer e muitos obstáculos são na verdade agentes catalizadores da nossa evolução.

Diante da situação, consegui (depois de ficar duas semanas ligando no consultório para saber se houve alguma desistência) uma consulta com um dos únicos médicos de Brasília que aceita plano e acompanha parto normal, ainda que só chegue no final, pelo menos não inventa mil desculpas precipitadas para você partir para a cesárea e a equipe de plantão do hospital já sabe que se você está com o acompanhamento dele não é para te colocar numa cesárea a toa. Na primeira consulta ele foi bem criterioso, olhou todos meus exames até aquele momento, perguntou em detalhes de como tinha sido a gestação até aquele momento e por fim me perguntou como tinha sido meu primeiro parto e quando respondi que foi cesárea, ele logo falou “ok, mas dessa vez você vai tentar normal, né?!”. Aquela pergunta dele foi um alívio para mim, significava que eu não seria levada a outra cesárea sem que houvesse um motivo plausível para isso. Meu marido perguntou se havia risco por conta da cesárea prévia, o obstetra respondeu que não, o risco era mínimo e a única diferença é que ele não poderia induzir com ocitocina. Isso para mim era ótimo, porque eu queria um parto sem intervenções. Disse, ainda, que esperaria até 41 semanas, achei razoável, não acreditava que a gestação passasse disso e confesso que não sei se esperaria mais do que isso (hoje bem mais informada sei que numa próxima gestação não ficarei insegura caso tenha que esperar).
Para evitar qualquer problema eu li vários relatos de parto, explicações do que era real indicação de cesárea, que o ideal era ir para o hospital num estágio mais avançado para evitar excesso de intervenções, etc. Eu me emocionava com os relatos de parto em casa e brincava com o meu marido que ele queria o hospital, mas que ia acabar tendo que me auxiliar no parto em casa sozinho rsrs, porque eu tinha certeza que meu parto ia ser rápido.  

Depois de algumas idas a emergência do hospital, com cólicas e contrações fora de hora, e diante do péssimo atendimento que recebi todas as vezes, meu marido começou a se abrir pelo menos para conversar sobre a ideia de uma Casa de Parto ou até quem sabe um parto domiciliar. No entanto, com aproximadamente 30 semanas descobrimos que eu tinha anticorpo irregular raríssimo no sangue que poderia causar anemia fetal. E com isso, havia o risco real de eu ter que me submeter a uma cesárea de emergência a qualquer momento, caso o doppler indicasse alteração no fluxo sanguíneo da neném. Ou mesmo que seguisse tudo bem, havia o risco dela precisar de uma transfusão de sangue logo que nascesse. Voltamos ao parto hospitalar como única opção. Fiquei de licença novamente, o repouso e evitar qualquer tipo de stress eram fundamentais para que eu não desenvolvesse mais anticorpos e a bebê ficasse prejudicada. Minha gestação foi classificada novamente como de alto risco. A cada dez dias eu ia fazer uma ultra com doppler e era aquela expectativa. Confesso que meu lado racional tinha muito medo, mas no fundo do meu coração eu tinha certeza que minha filha nasceria quando quisesse e que nada aconteceria com ela. Os resultados do doppler eram ótimos, a bebê se desenvolvia plenamente e não havia nenhuma indicação de anemia ou sofrimento e, assim, a gestação seguia seu curso normal.

As semanas seguiam, eu estava com muita dor no quadril e tinha dores de barriga constantes, cada vez que eu falava “ái” ou levantava para ir ao banheiro meu marido perguntava “Vai nascer?” eu me divertia e respondia “Vai nascer sim...Uma hora, mas não agora”. Como houve a expectativa de um possível parto prematuro, eu tinha várias contrações desde 32 semanas e minha barriga estava bem grande, as pessoas e familiares viviam me perguntando “Ué não vai nascer, não?!”, “Uhm você quer parto normal, né?! Mas para que isso?” (como se meu direito natural de parir fosse capricho de menina mimada). Parece besteira, mas esse tipo de coisa vai gerando certa ansiedade, dependendo do seu estado emocional, você começa a se abalar e a questionar suas decisões. O preparo emocional da gestante é fundamental para não cair nessa “pilha” e acabar partindo para uma cesárea por ansiedade ou medo de “passar do tempo”, que muitas vezes pode forçar o nascimento de uma criança prematura, considerando a margem de erro de duas semanas.

Bem, introdução feita, vamos ao que interessa, o parto. Na madrugada de quinta-feira 21/01/16, acordei de repente com uma dor de barriga fortíssima, fui ao banheiro (tive uma diarreia) e voltei a dormir. Uns 30 minutos depois tive uma dor muito forte que me fez pular da cama, senti um líquido escorrendo entre as pernas que não sabia se era a bolsa ou xixi, porque não tinha o cheiro de água sanitária que todos relatam. Fui ao banheiro novamente e estava com um sangramento, avisei meu marido e deitei novamente. Ao longo da madrugada aconteceram algumas contratações, que eu achava que eram fortes, mas agora sei que eram quase nada. As contrações não ritmavam, mas aconteciam a cada 10/15 minutos, tomei uns dois banhos quentes, meu marido (com a expectativa do nascimento não conseguiu mais dormir) foi arrumar algumas coisas, me trouxe comida e quando foi por volta de 6h da manhã segui o seu conselho e tentei dormir, as contrações pararam. Acordei umas 7h30 e liguei para o obstetra, porque o sangramento continuava. Ele pediu para que eu fosse até o consultório. Chegando lá, ele fez o teste da fitinha para verificar se eu estava perdendo líquido amniótico e deu negativo, ele fez o toque e verificou que o colo estava afinando, que eu estava perdendo o tampão, mas que ainda não havia dilatação ou sinal de trabalho de parto iminente, me orientou a ir para o hospital se as contrações ficassem a cada cinco minutos e de lá o plantonista entraria em contato com ele. Fui para a casa e segui vida normal, ou melhor quase normal, porque eu sentia várias contrações de tempos em tempos, elas doíam, mas eram perfeitamente suportáveis.

No sábado (23/01), com 39 semanas e 1 dia, fui madrinha de casamento, pedimos muito para a Catarina esperar até lá e ela esperou. Senti várias contrações na cerimônia e na festa, mas nada que indicasse que o TP estava de fato começando. Era engraçado, porque a cerimonialista ficava me seguindo e orientou a equipe a ficar de olho na grávida que podia parir a qualquer momento rsrsrs. Com o passar dos dias, as paradas para esperar as contrações eram cada vez mais constantes. Sabia que a Catarina estava a caminho, mas que, ainda, demoraria um pouco. A Maria Luiza, minha filha mais velha, afirmava que a irmã nasceria na terça-feira.

E não é que na madrugada de terça-feira (26/01/16) exatamente às 2h20 da manhã acordei com uma contração bem mais forte (achei que agora eram as fortes de verdade, sabe de nada inocente) e tive novamente uma forte diarreia, as contrações foram ritmando, eu tomava banho, caminhava e elas continuavam. Às 7h30, elas estavam a cada 5 e 7 minutos (variava), decidimos sair para levar minha filha mais velha para a escola e ligamos para o obstetra no caminho que falou para irmos para a emergência que o plantonista me examinaria e avisaria a ele o estágio do TP.

Chegando lá, fui encaminhada para o box, a plantonista veio me examinar e fez o toque mais doloroso, demorado e profundo da minha vida, vi estrelas e ela disse que não encontrou o meu colo do útero, meu marido quis intervir, mas na hora não sabemos ao certo o que fazer. Inicialmente achamos que era incompetência dela, mas lendo um relato no facebook, percebi que a médica na verdade tentou estourar minha bolsa, nunca poderia imaginar que alguém fosse capaz disso, minha sorte foi que a bebê não estava encaixada e não tive outra contração enquanto ela estava no box. (Dica, se algum medico fizer um toque estranho, profundo demais, dolorido demais e empurrar sua barriga, grita e manda parar na hora). Ela disse que esperaria a próxima contração e faria novo toque, mas eu travei, meu corpo travou. Aí entra a questão animal e instintiva do parto, precisamos de paz e tranquilidade para parir e o ambiente hospitalar e determinadas ações médicas paralisam nosso corpo e arrisco dizer que isso seja a causa de muitas DESNEcesáreas. As contrações perderam o ritmo e diminuíram a intensidade, acho que meu lado bicho inconsciente deu um tempo para o meu corpo para que eu pudesse fugir dali e arrumar um lugar seguro para parir.

Escutei a voz do substituto do meu obstetra e meu marido o chamou, pedi que ele fizesse o toque e me desse alta, porque como as contrações tinham diminuído eu queria ir para casa. Comentei sobre o toque anterior, ele achou bem estranho, pois verificou que o meu colo estava apenas um pouco posterior, mas já bem fino e nem um pouco difícil de encontrar. De qualquer forma, eu ainda não tinha dilatação, as contrações não tinham mais ritmo e o cardiotocograma indicava uma intensidade baixa nas contrações (depois descobri que esse exame é absolutamente impreciso para contrações e que o médico deve observar o estado da paciente) então ele providenciou minha alta. Neste momento, ele foi super educado e atencioso, me explicou que eu provavelmente estava nos pródromos (acho que já era a fase latente, mas como eu queria ir embora não ia ficar questionando isso), que meu TP poderia acontecer naquele dia ou demorar uns dias, não tinha como prever e que se eu precisasse ele estaria no hospital a noite. Infelizmente quando voltei a noite esse comportamento respeitoso e acolhedor não se repetiu, muito pelo contrário.

Saí do hospital e fui para a massagem com a minha querida amiga Marlete, ela foi sensacional, me ajudou a relaxar e apesar de ter tido umas 3 contrações consegui dormir na maca. Saí de lá aliviada e fui fazer acupuntura para estimular o trabalho de parto com a Érica de Paula (profissional excelente). Durante a sessão, tive 4 contrações bem fortes, mas também consegui cochilar e descansar. Quando saí, a Érica me aconselhou a ir para a casa e dormir, porque a tendência eram as contrações aumentarem de noite. Como eu não tinha almoçado, e dentro de mim tinha a certeza que a Catarina nasceria no máximo até a manhã seguinte, pedi para o meu marido para fazer a “última refeição”, porque quem já teve um recém-nascido sabe que por um bom tempo comer tranquilamente é impossível. Almoçamos super bem, apesar das contrações a cada 10/12 minutos e já mais fortes, e depois buscamos minha filha na escola e fomos para casa.

Como minha filha dormiu no caminho, pedi para o meu marido não acordá-la mesmo aquele não sendo um bom horário para a soneca da tarde, pois eu aproveitaria e dormiria um pouco seguindo o conselho da Érica. Isso foi por volta de 17h30, quando deu 18h30 acordei com uma contração bem, mais bem forte, junto com vontade de fazer cocô. Levantei e fui para o banho, sabia com absoluta certeza que tinha começado, revezei algumas vezes o chuveiro com a privada, porque as contrações iniciais vinham com cólicas intestinais. E realmente foi ali que começou de verdade, contrações muito fortes e ritmadas como um relógio suíço. Lembro que de manhã meu marido me perguntara se o intervalo era exato ou variava e eu não sabia responder.

As contrações eram fortes, intensas e doíam bastante, ao contrário do que eu imaginava, elas não eram dores na região abdominal ou pélvica e nem cólicas uterinas, eram dores intensas na região lombar. Parecia que os ossos dessa região quebravam em pedacinho a cada contração. Nos intervalos era como se nada estivesse acontecendo, sentia apenas um leve incomodo nas costas, como sentimos depois de algum esforço. As contrações começavam sempre sorrateiramente e a partir do mesmo ponto no meio da minha lombar embaixo quase próximo a pelve, ela ia tomando espaço aos poucos até que vinha a dor aguda e depois ia diminuindo e uma sensação de alivio tomava conta, tudo isso num período de quase 1 minuto. Para aliviar, banho quente, bola, as vezes eu ficava de quatro na cama durante a contração, fui tentando lembrar tudo o que tinha lido sobre o assunto, mas a cabeça não funciona direito (e não é para funcionar mesmo, porque no parto seu corpo não precisa da cognição, mas sim do lado mais primitivo e instintivo do cérebro). Nessa hora percebi o quanto me fazia falta não ter uma doula, entendi o quanto ela é fundamental para apoiar a mulher com as técnicas certas, com carinho e com a segurança emocional necessárias. Meu marido estava ao meu lado e fazia o que podia para me ajudar, mas ele estava tão envolvido emocionalmente no processo quanto eu, ele também estava em trabalho de parto. E sem informações, pois não leu os relatos ou viu os vídeos que eu consumia compulsivamente e nunca conseguimos ter uma conversa profunda e detalhada sobre esse momento ou irmos a alguma roda de gestantes que nos esclareceria muitas coisas, hoje sei que isso faz MUITA diferença.  Ele, na intenção de obter informações que pudessem ajudar na hora, inocentemente sempre perguntava para o obstetra como seria e o obstetra sempre respondia a mesma resposta que não responde nada “quando tiver contrações a cada cinco minutos vai para o hospital”. A Doula cuida da mulher e permite que o casal possa se entregar àquele momento. Mesmo que o acompanhante seja outro familiar ele ou ela estará emocionalmente envolvido(a) e a Doula é isenta e sabe o que está acontecendo e tem informações para amparar, orientar, tirar dúvidas e inseguranças.

Minha filha de 4 anos meio que instintivamente fez o papel de doula no quesito apoio emocional, ela estava vendo TV no andar de cima e descia a cada contração para ficar comigo. Quando as contrações ficaram mais próximas ela ficou direto ao meu lado, me dava a mão e olhava nos meus olhos com amor, entrou no banho comigo e me apoiava na bola. Quando levei um tombo na bola, (nota importante não sentem sozinhas na bola embaixo do chuveiro, eu caí com tudo no chão, mas eu estava tão fora de mim que meu marido veio para me dar uma bronca por eu não ter pedido ajuda, mas logo viu que eu não estava mais ali racionalmente) minha filha me ajudou a levantar e me fez massagem nas costas. Tenho muita sorte em ter tido o privilégio de ser mãe da Maria Luiza, ela é muito iluminada e especial, tem uma sensibilidade fora do normal.

Às 21h30, as contrações já estavam muito fortes e a cada 5 minutos britânicos, as vocalizações e gemidos já há algum tempo haviam virado gritos. Como disse depois a Maria Luiza para todo mundo, “Minha mãe virava monstro, gritava e depois voltava ao normal”. Resolvemos levar minha filha para a casa da minha sogra e seguir para o hospital Santa Luzia que fica a 40 minutos de onde moro. Levei quase uma hora para conseguir me vestir, subir e entrar no carro, porque as contrações eram constantes e muito intensas. O trajeto de carro foi bem tenso, contrações a cada 3 minutos, quebra-molas e curvas, a única coisa que pensava era no arrependimento de não ter feito um parto domiciliar planejado.

No caminho meu marido ligou para o obstetra, porque mesmo ele tendo orientado que o protocolo era irmos para o hospital e o plantonista ligaria para ele, estava de noite e queríamos deixa-lo alerta. Ele atendeu, mas meio impaciente fez questão de lembrar ao meu marido o protocolo, infelizmente esse é o ônus de ter um obstetra do plano de saúde com muitos pacientes, para evitar ficar recebendo várias ligações fora de hora eles adotam esse protocolo e aí todo o carinho e acolhimento durante as rápidas consultas não acontecem no momento mais importante que é o parto. Me arrependi mais uma vez de não ter optado por um parto domiciliar ou em casa de parto, com uma enfermeira obstétrica que com certeza seria muito mais acolhedora durante todo o decorrer do parto. Bom, mas já era tarde para arrependimentos e ir para o hospital era minha única opção. Confesso que cogitei pedir ao meu marido que voltasse para casa para termos nossa filha lá, mas nem fiz a proposta, porque ele não toparia nunca e já havia tensão suficiente. Deixamos a Maria Luiza na casa da minha sogra, chorei, não de dor, mas porque queria ela ao meu lado.

Chegamos no hospital Santa Luzia às 23h15, eu gritando a cada 3 minutos, meu marido me segurando e o recepcionista com cara de pânico dizendo que era melhor procurar outro hospital porque ali não tinha médico. Meu marido ligou novamente para o obstetra que disse que os médicos iam começar uma cesárea, mas que um deles desceria em 5 minutos para me examinar. Fui para a triagem e a enfermeira foi um amor comigo (a única, porque as outras que tive contato no box, eram se noção, não queriam esperar a contração passar para colocar monitor cardíaco e de pressão, teve uma que me viu pedir agua para o meu marido e disse que eu não poderia beber água, quis dar um sermão nela, mas as contrações me permitiram dizer apenas “vou ter parto normal” e ela ainda retrucou “mesmo assim”). Cheguei no box, colocaram o cardiotocograma e o plantonista substituto do meu obstetra chegou, foi logo mandando eu me acalmar e parar de gritar porque ninguém gritava daquele jeito (Oi?), mandou eu tirar a calcinha rápido, porque a paciente dele estava esperando no centro cirúrgico. Juro que fiz um esforço mental enorme para me convencer de que ele estava apenas tentando me acalmar e que a paciente dele estava em uma emergência seríssima que o deixava aflito, afinal em todos meus contatos anteriores ele sempre tinha sido educado e acolhedor, inclusive se ele tivesse se mantido assim, não teria necessidade do meu obstetra ir até o hospital, eu seguiria o parto com ele tranquilamente. Ele fez o toque, disse que eu estava com apenas 1,5 cm de dilatação e que ia demorar a evolução, isso se já fosse o trabalho de parto, avisamos a ele que eu era estreptococos positivo e precisaria do antibiótico, ele disse que tudo bem e saiu.

Percebi que depois que o médico saiu, tive umas 3 contrações e fiquei tentando me controlar para não gritar e depois que acabaram fiquei com vergonha de ter gritado, foi quando falei para mim mesma (ler materiais sobre empoderamento, humanização de parto e até violência obstetrícia fazem a diferença) “grita o quanto você quiser e se acharem ruim vão ter dois trabalhos. Este momento é seu e agora você não é a Priscila, certinha, virginiana seguidora de regras, você é a Priscila fêmea parindo sua filhote”.

As contrações ficavam cada vez mais fortes, intensas e longas, pedi para ir ao banheiro (péssima idéia) entre a ida e a volta tive 3 contrações e quase caí no chão. Por um momento quis ficar de cócoras no chão do box, mas meu marido com medo que eu caísse me colocou na maca de volta. Não sei se foi ele ou alguma enfermeira, mas subiram as duas grades para eu não cair da maca e isso impedia minha locomoção (outro momento que uma doula teria sido fundamental para não permitir isso). Por volta de meia noite e pouco, o enfermeiro chefe do box apareceu, mexeu nos monitores e saiu com o telefone na mão dizendo que procederia minha internação (que nunca aconteceu, não sei se por descaso, negligência ou por erro do médico que achava que eu não estava em TP). Nós sentimos o tempo todo um desconforto geral da equipe de enfermagem com aquela situação, afinal eles estavam sem médico responsável com uma grávida em trabalho de parto ativo e contrações com gritos a cada 1 minuto e meio. Entre as contrações, as vezes, eu ouvia os outros pacientes conversando, não sei o que me incomodava mais se eram as conversas paralelas sobre assuntos diversos ou os comentários de “coitada”. De qualquer forma, eu me coloquei em plena entrega ao momento.

Um tempo depois, percebi que tanto eu como meu marido estávamos ficando preocupados da dilatação não estar evoluindo e que eu não aguentaria aquelas dores por mais oito horas (considerando aquele protocolo médico que tenta transformar o TP em roteiro e diz que a média é de 1 cm de dilatação por hora). Agora sei que o Trabalho de parto é a natureza mais primitiva se manifestando, é lindamente imprevisível na essência, e, assim como todas as grandes manifestações da natureza não é passível de roteiro. Percebi, também, que sentia medo quando as contrações estavam começando e foi aí que lembrei do nosso mantra “Onde existe medo, não existe amor” e resolvi acolher as contrações e acolher a dor, porque elas que estavam trazendo minha filha de uma forma linda e natural para o mundo aqui fora.

Meu marido é Reconnective Healing Practioner (A Cura Reconectiva é uma linda, profunda e intensa terapia energética de conexão com o universo em toda sua integralidade, seguindo a premissa maior de que não somos uma unidade, mas sim parte do todo. Deepak Chopra aborda essa premissa de forma brilhante em seus livros,) e começou a fazer uma sessão em mim. E neste momento entrei definitivamente na Partolândia para ficar.  Sério, é como se eu estivesse em outra dimensão, é um estado de consciência alterada, eu continuava sentindo as dores e as contrações, mas era como se eu não estivesse no meu corpo, inclusive tinha a sensação de dormir entre uma outra (o que era impossível considerando que o intervalo era de apenas 1 minuto). As contrações, então, intensificaram e senti durante uma delas líquido saindo (achei que era xixi) porque o liquido saía aos poucos em cada contração. A essa altura minhas pernas abriam involuntariamente. Abria os olhos e via meu marido fazendo a sessão e me via, sentia realmente estar fora do corpo e assistia a tudo como se fosse uma orquestra perfeita, não havia tempo nem espaço, era tudo som, luz, informação, energia, realmente transcendi no mais profundo sentido dessa palavra.

Por volta de 1h30 o médico apareceu, entrou no box mandando eu parar de gritar e sacudindo o resultado do cardiotoco dizendo que eu não estava em trabalho de parto (agora eu rio, mas na hora entrei em pânico, de repente a orquestra parou de tocar, as luzes se ascenderam, senti como quando acordamos de repente com um estrondo interrompendo um sonho bom). Eu que, até então, não tinha tido a hora da covardia (tinham rolado apenas uns comentários do tipo, “me ajuda” e “eu não vou mais aguentar isso”, mas sem grandes evoluções), entrei em desespero e pedi instantaneamente uma cesárea. O médico respondeu que não faria uma cesárea 1 h da manhã porque não tinha nada que justificasse (lógico, uma mulher gritando por 90 segundos a cada 45 segundos, com as pernas abertas e que segundo ele não estava em TP não é motivo para uma intervenção qualquer ou exame para saber o que ela tem #sqn, se ele tinha certeza que não era trabalho de parto, no mínimo, tinha que chamar um clinico, um cirurgião ou até um psiquiatra para me avaliar). Até agora me espanto como qualquer pessoa, especialmente um médico, acha que alguém gritando daquele jeito não tem nada, só frescura. Ele, ainda, disse “Somos super a favor do parto normal, mas realmente se você está gritando desse jeito com essas contraçõeszinhas, você não tem menor a condição de ter um parto normal.” Meu marido perguntou a ele se eu podia estar com o ciático pinçado ou algum problema ortopédico, porque eu era super resistente a dor e ele em 14 anos nunca tinha me visto gritar daquele jeito ou sequer perto daquilo. Eu chorei e implorei por alguma ação, disse que nunca fui fresca para dor (e mesmo se fosse), que eu estava com uma dor dilacerante, que se ainda não era o trabalho de parto ele precisava fazer alguma coisa. Ele disse que não sabia o que eu tinha, mas que Trabalho de Parto ele sabia que não era. Meu marido, então, insistiu (nessa altura eu já chorava com a recusa dele em fazer a cesárea, porque se não era TP eu não aguentaria mais aquilo), pediu que ele me desse algum remédio para dor ou fizesse a cesárea logo, mas daquele jeito ele não poderia me deixar. O médico friamente disse que ele aquela hora não faria nada e que se quiséssemos remédio ou cesárea que nós mesmos ligássemos para o meu obstetra, porque nem isso ele faria. Durante esse diálogo, rolaram umas 3 contrações e ele sempre fazendo “shiiiiiii” para mim. Ele chegou a abrir a cortina do box para sair, quando meu marido insistiu que ele voltasse e pelo menos me examinasse porque eu estava perdendo muito líquido. Ele, então, voltou e levantou meu lençol, nunca vi uma expressão tão sem graça em alguém. Ele falou “Eh a bolsa estourou e a neném está bem baixa”, tive uma contração, ele esperou para me examinar, mas fazendo sinal e “shiii” para eu parar de gritar (como se eu fosse a única mulher do mundo que gritou ao parir), assim que passou a contração ele fez o toque e para meu alívio eu já estava com 8 cm de dilatação. Isso mesmo, dilatei 7 cm em menos de 2 horas.

Apesar do medo que ele me fez passar, ouvir as palavras mágicas “8 cm de dilatação” renovou todas as minhas forças, meu racional desligou novamente, voltei à partolândia e à minha experiência transcendental e lá estava novamente a Priscila fêmea pronta para parir sem intervenções, sem anestesia, sem remédios, sem nada e gritando livremente. Na verdade eu teoricamente precisava do antibiótico, porque sou estreptococos positivo (hoje já mais informada sei que de fato o antibiótico é outra lenda médica imposta). Avisei ao médico desde a hora que dei entrada no hospital, mas por negligência (afinal foi esse mesmo médico que em uma consulta quando meu obstetra estava de férias me explicou a importância do antibiótico) só fui tomar uns dez minutos antes da minha filha nascer, foi bem ruim a enfermeira querendo pegar o acesso da minha veia durante a contração e eu gritando, fiz uma cara de louca e mandei ela me largar. Quando a contração parou entreguei o braço e disse calmamente “você tem menos de um minuto antes que venha a próxima”.

Voltando ao momento em que, enfim, entenderam que eu estava em trabalho de parto mais do que ativo. O médico saiu do box dizendo que ligaria para o meu obstetra e procederia os trâmites para minha internação (a essa altura desnecessária). Ele sumiu. Pouco tempo depois, acho que uns 15/20 minutos no máximo, entrei no expulsivo, minhas pernas abriam e levantavam involuntariamente e meu corpo fazia a força de expulsão (é lindo como o corpo trabalha sozinho, fico arrepiada toda vez que lembro, a natureza é incrível). Avisei meu marido, “está nascendo”, ele saiu correndo desesperado para chamar algum médico (coitado!). Nisso uma mulher que acompanhava o marido no box ao lado e, assim como todos os pacientes que estavam lá, estava compadecida com a minha situação, percebeu que eu estava sozinha e veio ficar comigo. Quando ela calmamente segurou minha mãe e me disse palavras de conforto, fiquei tão calma e segura, senti uma paz enorme. Se eu tivesse uma doula, teria tido esse conforto em todo o processo. Meu marido me apoiou e me confortou o tempo todo, fez massagem, respirou, me incentivou, me dava água e sal porque minha pressão despencava, mas ele estava envolvido emocionalmente, ele era parte daquele trabalho de parto, ele tinha os medos e inseguranças dele de pai e marido que por mais que não fossem verbalizadas eu sentia, a doula estaria ali totalmente isenta e pronta para confortar e apoiar nós dois. Meu marido avisou ao outro plantonista que disse que iria para lá em 3 minutos (Estou até agora esperando ele aparecer rsrs!).

Assim que meu marido voltou para o box, eu senti a clássica vontade de fazer cocô de quando o neném passa pelo canal. Falei para ele “está nascendo, mas não sai daqui, porque está nascendo mesmo”. Ele se posicionou pra receber a neném. E a minha profecia de que ele auxiliaria o parto sozinho estava prestes a se realizar, quando o meu obstetra pareceu. Aí junto com ele apareceram as pessoas que trabalhavam no hospital naquela noite, entre elas o plantonista que estava me “acompanhando” e o enfermeiro chefe do box. O plantonista, ainda depois de tudo, mandou eu me acalmar, meu obstetra só me olhou e falou “pode continuar fazendo força” e falou para o enfermeiro que eles me tirariam dali imediatamente. Sinceramente ele deveria ter me deixado ali mesmo, a remoção foi absolutamente desnecessária e stressante. O médico no “pé” da maca mandando eu fazer força, o enfermeiro empurrando a maca e batendo em todas as paredes e quinas e o meu marido atrás gritando para eu encolher a mão se não ia quebrar os dedos. Toda vez que vinha a força de expulsão minha reação natural era segurar na lateral da maca e levantar o corpo, mas aí tinha que deitar para não machucarem minha mão. Sério, eu estava no auge do expulsivo, minha última preocupação deveria ser em preservar a integridade dos meus dedos.

Ainda na saída do box, senti o círculo de fogo, entramos no elevador, o médico ainda cogitou descer um andar antes para trocar de roupa, mas desistiu (ainda bem). Senti a cabeça coroando totalmente no elevador, saímos e seguimos direto para a sala de parto, menos meu marido que depois de tudo foi barrado porque tinha que colocar uma roupa estéril (falta de bom senso absoluta, além de ninguém estar com roupa estéril, nem o médico, minha maca estava com pertences meus que vieram da rua e ficaram lá em cima), meu marido estava tão nervoso e não queria criar problemas que pegou a roupa e foi trocar (tempo suficiente para ele não ver a filha nascendo).

Entramos na sala, apenas o médico e eu, ele se sentou e falou para eu concentrar a força do grito na barriga e puxar minhas pernas para trás com as mãos e, então, saiu a cabeça (é uma sensação incrível), senti novamente uma dor, mais uma forcinha saíram os ombros e em um instante a dor passou por completo, ouvi o médico dizendo “ela é pesadinha” e pronto às 2h13 (ou algo próximo porque ninguém olhou para o relógio) do dia 27/01/16 a minha linda Catarina estava no meu colo. Olhei no fundo daqueles olhinhos curiosos e disse “Minha filha, mamãe te ama muito, seja bem-vinda!” escutei algumas pessoas que estavam entrando na sala falando “já nasceu, já nasceu!” vi o olhar emocionado da enfermeira que acabava de chegar, e depois fiquei hipnotizada olhando para a Catarina, que não chorou, apenas miou calmamente e me olhou como que tentando entender o que estava acontecendo (fazendo jus ao que diz seu mapa astral, aquariana com ascendente em sagitário e lua em virgem). Abracei minha cria, ainda roxinha e pegajosa com a cabeça pontuda e cheirando vida nova, era a perfeita definição do amor. O médico pediu para a enfermeira me ajudar a levantar o vestido para que eu pudesse colocar a Catarina no peito. Nisso percebi meu marido chegando emocionado e aliviado, foi tão inebriante e mágico que nem foto tiramos desse momento, mas não esqueço nada, nem as feições, nem o cheiro, nem a luz e nem os sentimentos daquele momento.
Meu marido estava paralisado, eu, então, pedi para o médico que deixasse ele cortar o cordão. O médico disse que tudo bem que iria só clampear e dava para ele cortar. Apesar de eu ter esquecido de pedir, o obstetra esperou um tempo para clampear o cordão.  Meu marido, então, cortou o cordão umbilical, vejo muito simbolismo nisso, considerando que no desenvolvimento psicológico da criança geralmente é a figura paterna que surge para quebrar essa unidade mãe e bebê, sendo essa quebra de extrema relevância para o desenvolvimento psíquico da criança e da própria mãe.

Tive uma laceração mínima (2 míseros pontos apenas), devo isso a fisioterapia na Fisio e Pelve com a Carolina, maravilhosa e um amor de pessoa. A placenta saiu em menos de dez minutos e não senti nada. E quando acabou tudo eu estava, por incrível que pareça, cheia de energia, sabe aquela sensação de bem estar e disposição de quando fazemos esporte, estava assim. Queria já sair andando, mas não deixaram, eu tinha que ir de maca, mas como a enfermeira não dava conta de me passar para maca tive que ficar pulando de uma para outra que na prática foi muito mais esforço do que se eu tivesse andado para a sala ao lado, mas o povo não pensa, só segue o protocolo.

Uns seis minutos depois, levaram minha filha para a sala de pediatria (é pouco tempo, mas para mim cuja primeira filha foi levada sem que deixassem eu sequer encostar nela, me mostraram por exatos 2 segundos e saíram da sala, seis minutos foram uma eternidade linda).  E aí mais problemas com a equipe médica do Santa Luzia, o pediatra não permitiu que meu marido ficasse na sala com a bebê durante os procedimentos, além de mandar meu marido sair, o DEShumanizado pediatra deixou minha filha pelada no berço chorando com frio com a alegação de que só permitiria que me levassem ela na hora que meu marido entregasse a roupa. Ora foi parto normal, ele tinha que ter feito igual com o casal que estava na recuperação de um parto de emergência, enrola a neném no cueiro do hospital, entrega para mãe e quando a roupa chegar troca. (E se eu não tivesse com a mala da maternidade?). E aí o que se seguiu foram mais daqueles erros desumanos que lemos em vários relatos, pedi água na sala de recuperação e a enfermeira simplesmente respondeu “aqui não tem”, por sorte a garrafa d’água do meu marido estava em cima do balcão e eu reconheci e falei para ela me dar aquela garrafa que era minha, se não eu mesma ia levantar para pegar. Não me deram comida quando cheguei no quarto (mandaram eu esperar o café da manhã às 7h, eu estava sem comer desde 16h30 e em trabalho de parto e ainda eram 4h da manhã), não queriam que eu tomasse banho porque tinha risco de queda, mas toda vez que eu troquei de maca como não tinha equipe para ajudar eu que pulava de uma maca para outra ( na maior desenvoltura, diga-se de passagem). O quarto tinha uma janela virada para um exaustor empoeirado, o ar condicionado estava sujo e pingando no meio do quarto, para desligar o meu marido teve que pedir o controle emprestado no quarto ao lado. Enfim, o quarto parecia um depósito adaptado.

Apesar de tudo de ruim no hospital e a equipe médica, o parto foi a mais linda e enriquecedora experiência da minha vida!

Catarina nasceu livre, quando quis, perfeita e super saudável, com 39 semanas e 4 dias, Apgar 9/10, medindo 50 cm, 3,450 kg e perímetro cefálico 35 cm (indicação de cesárea para bebê grande é lenda, mas todas as enfermeiras me perguntavam como eu tinha parido uma bebê tão grande de PN, tamanha a desinformação).

Sobre o VBAC, resgatei meu direito de parir como eu quisesse (cesárea também é parir, mas deve ser por necessidade real ou nos casos das eletivas por escolha exclusiva da paciente ciente dos riscos de uma cirurgia desnecessária).

Sobre o parto normal, a dor é uma ferramenta do corpo para te tirar do lado racional, para te permitir o recolhimento e a entrega absoluta. Acredito que muitas mulheres “travam” por dois motivos principais, o primeiro por questões emocionais e medos inconscientes que deveriam ser sempre trabalhados antes do parto e o segundo quando o ambiente ou os profissionais envolvidos fazem muitas intervenções e, assim, interrompem a natureza, assim como uma barragem que desvia o curso do rio.

E finalmente, sobre a magia do parto normal, eu realmente achei que morreria, mas é um morrer simbólico, morri a cada contração, porque no final eu renasci, outra mulher, mais forte, mais segura, hoje conheço meus limites (na verdade hoje sei que não tenho limites), venci o medo, a dor, as angústias, enfim vivi o mais intenso e rápido processo de empoderamento! Conheci a intensa, maravilhosa e orgástica sensação de alívio, paz e satisfação de quando enfim sua cria sai para a vida!  Foi a mais incrível sensação de conexão com o Universo que senti em toda a minha vida, a natureza é definitivamente perfeita.







terça-feira, 22 de setembro de 2015

El Cruce –Day 03 –A Vitória!

El Cruce –Day 03 

Antes uma rápida introdução 

E se passaram 7 meses... E só hoje decidi publicar o último dia de um dos maiores desafios da minha vida. Por que demorei tanto? Bom, algumas coisas aconteceram neste meio tempo, , na verdade posso dizer que 2015 tem sido uma enorme montanha russa de Altos muito altos e baixos muito baixos.
No final de maio, uma semana depois que eu tinha escrito este capítulo e iria fazer só a revisão final, recebi um maravilhoso presente de Deus descobri (após uma meia maratona na serra) que estava grávida, e agora sei que é mais uma linda menina, a Catarina. Confesso que com essa notícia inesperada me esqueci de publicar o texto já pronto e aí algumas semanas depois afundei numa depressão muito ruim, mas isso conto num próximo texto.
Agora com vocês, senhoras e senhores, El Cruce – Day 03!!!

Acampamento da Rainha Elsa de Arendelle 

Acordei com o barulho das pessoas se preparando para largar, o frio congelava meus ossos, praticamente não dormi, estava abalada física, fisiológica e psicologicamente. Definitivamente a Rainha Elsa deu uma passadinha lá de madrugada. Acordei chorando e disse “Chega, não saio daqui”. O Renato falou “calma, vem aqui , vamos dormir mais um pouquinho” . “dormir?, nesse frio? Eu só quero ir embora daqui”. Percebi que ficar ali não me levaria a lugar nenhum, saí da barraca chorando e decidi colocar logo a roupa, vi todos do grupo já quase prontos, a Carol e o Marcelo já se direcionavam para a largada. Alguns olharam para mim e deram “bom Dia!’ Era o suficiente para eu voltar a chorar. Coloquei a roupa e ainda tinha um mundo de coisas para arrumar antes de partir. Recomeça a saga de esvazia colchão, prepara sanduiche, guarda as coisas. Por que não fiz isso ontem? Eu mesma me perguntava e respondia “Porque ontem se você não tivesse ido dormir , teria pedido para ir embora!”. Confesso que não foi bom, não foi legal, foi horrível, estava péssima, mais tarde descobri o porquê de tanto desequilíbrio emocional (depois conto, vai ter que ler tudo rsrs).

Eu sabia que haveria um corte no KM14, o problema deste corte não era ter que parar, mas sim ter que voltar a pé os 14km, ia ser a derrota da derrota. Na noite anterior todos relatavam isso e nos aconselhavam a largar no primeiro batalhão às 6h30, eu sei que eles tinham a melhor das intenções, mas aquilo só piorava minha cabeça.


Quase todo o acampamento já tinha largado e nós, ainda, terminávamos de arrumar a mala com a equipe da organização gritando que a largada fecharia. No dia anterior eles avisaram que teríamos até 8h30 para largar e não eram nem 8h ainda. Percebi que não adiantaria nada eu me stressar com isso. 


Last but not least... A largada do 3º dia:

Sem status, sem empolgação, seguimos em direção ao pórtico, só tinham mais umas cinco duplas ali se preparando para largar. Lembrei que estava sem comer e peguei uma banana que estava largada no chão em frente a uma barraca vazia. Quando fazia prova no asfalto de 10 km tinha todo um preparo, banana com aveia e mel pré-treino, hidratação, roupas ajustadas perfeitamente, etc, um monte de frescura, e aí para correr 30 km no fim do mundo com os maiores riscos e mais difíceis terrenos, subidas e descidas, meu pré-treino é uma banana meio velha achada no chão... A lição disso, é que na vida muitas vezes queremos fazer tudo em CNTP (Condições normais de Temperatura e Pressão) e quando qualquer coisinha dá errado nos abalamos, porque no fundo não confiamos em nós mesmos, e queremos sempre arrumar o apoio no exterior e na zona de conforto. Não estou pregando que ninguém vá correr sem comer, mas naquele momento eu estava milhas e milhas de distância da minha zona de conforto e o único lugar que eu poderia buscar forças era em mim! Não tinha pré-treino, não tinha roupa bonitinha e cheirosinha, não tinha xixi pré prova, não tinha p... nenhuma, só tinha EU no mais literal e intenso sentido deste pronome, então minha única saída naquele momento era resconstruir minha indentidade, força interior, me reequilibrar e seguir.

Enquanto chegávamos próximos ao pórtico, avistei um casal que conhecemos no segundo dia e que sabiam do meu tornozelo e das nossas dificuldades, eles estavam na caçamba de uma caminhonete porque haviam desistido (o segundo dia foi destruidor para eles) e iriam embora. Quando eles avistaram eu e o Renato seguindo em direção ao Pórtico, se levantaram e começaram a nos aplaudir e gritar nos dando força, como se fôssemos atletas profissionais indo para a competição.  Eles não devem ter noção do que fizeram, queira muito poder reencontrá-los um dia para expressar toda a minha gratidão, eles catalisaram meu processo interior de reconstrução, senti uma força fora do comum, mudei minha postura, levantei a cabeça, abri os ombros e pensei “Eu vou vencer as montanhas da Patagônia”. Aqui uma lição, sobre comunicação, o que comunico com meu corpo, palavras e ações eu sinto e o que eu sinto vira crença e as crenças são auto-executáveis (farei depois um texto sobre isso)! O que importa neste momento é percebermos a importância de mantermos a cabeça levantada, os ombros abertos e o sorriso no rosto, mesmo nos momentos difíceis, porque nosso cérebro ativa a liberação de hormônios de bem estar porque entende que estamos bem. E uma lição sobre motivação e gratidão, sempre que puder verdadeiramente motivar, elogiar e levantar alguém, faça, você tem o poder de salvar muitas pessoas!

Os primeiros 14 km – Caminho das nuvens ! Quando você sobe tanto que não chove em você porque você está acima da nuvem da chuva

O início era bem fácil, terreno plano com pouco cascalho, junto com a gente ia uma moça da produção e pelas expectativas, passaríamos o km 14 bem antes do corte. Fomos caminhando rápido, dando uns trotezinhos bem leves (meu medo de cair era muito grande), no início comi a tal banana, nunca foi tão difícil terminar uma banana. Ia tudo relativamente bem até chegarmos na beira de um rio que teríamos que atravessar, a ponte de tronco de madeira  bamba estava lacrada por segurança e não havia outra saída, só enfiar o pé no rio. Eis que olho para o Renato e ele está chorando, sim chorando literalmente, e aí foi a minha vez de dar força para ele. Olhei nós olhos dele e disse ‘você vai conseguir”. Ele me falou que tinha sofrido muito de frio ontem e que não queria passar por isso de novo. Falei “vai ficar tudo bem, vamos”. Ele foi na frente, pela primeira vez nem olhou para trás para me ajudar, chegou do outro lado da margem e eu fiquei aliviada. Eu, então, levantei minha calça e minhas polainas (Deus abençoe aquelas polainas roxas de lã), o rapaz da produção gritou do outro lado que não era para eu tirar nada, eu gritei de volta “só estou levantando minhas polainas!”(da série diálogos esdrúxulos), hoje eu percebo o quão surreal foi nosso rápido diálogo em Portunhol. Entrei no rio, passei três pedras, cheguei na metade e eis que a correnteza simplesmente aumentou e me desiquilibrou, quase cai, bateu o medo, respirei fundo e proclamei mais uma vez meu mantra “Onde existe medo, não existe amor” “Vai nessa e não chora”, firmei o bastão (que eu chamava carinhosamente de tacos) e atravessei o rio de degelo. Sãos e salvos (ou melhor só salvos) , seguimos em frente.

Após o Rio, uma subidinha leve #sqn para aquecer. Começamos uma intensa subida em caracol na floresta, aquela seria a última subida killer da prova. No meio do caminho, apareceu José, um menino super gente boa da organização da prova que nos acompanhava porque éramos os últimos colocados. A cada cinco minutos o Renato perguntava quanto faltava e se conseguiríamos chegar antes do horário de corte. Até antes da subida tínhamos certeza que sim, mas quando chegou a subida lembramos que estávamos no El Cruce de Los andes, a prova em que tudo pode acontecer.  Eis que acaba a subida na floresta e começa uma subida em pedras escorregadias e úmidas, na primeira subida meti as mãos na pedra para me apoiar e lembrei que havia esquecido as luvas, minhas mãos queimaram com o frio, as pedras pareciam gelo. “Engole o choro e vai” e segui, até que chegamos no alto da montanha de pedras, tinha uns 300 metros plano, no pico mesmo, não havia mais nada para subir, a névoa começava a tomar conta e a impedir a visão, mas a chuva parou e logo percebemos que a chuva não havia parado, nós é que estávamos acima dela. Foi um momento vitorioso e lindo, (Eu fiz inveja na Elsa, eu era a Rainha de Gelo rsrs), saímos das pedras e entramos numa trilha de morro com descida, perguntei ao José como seria dali para frente e ele disse que haveria 2 km  de descida muito difícil e depois ficaria mais fácil. Paramos para comer um pouco do sanduiche de atum que na verdade era uma maçaroca de pão amassado com atum, na necessidade meu amigo qualquer coisa serve, dividimos com o José (coitado rsrs). Um pouco de descontração, o Renato começa a conversar com  o José em Portunhol e com a boca cheia de pão, o José olhou para mim com um olhar de espanto e eu tive um acesso de riso. O José tinha certeza que eu era louca, porque da gargalhada insana, olhei no fundo dos olhos deles e quase chorando perguntei “Esta descida do próximo trecho é em pedras como aquelas?” Ele, então, disse que sim, “ eu olhei mais fundo ainda e insisti, mais fáceis ou mais difíceis? Ele, disse “mais difícil” ! Comecei a chorar de novo, falei para o Renato que tava com medo e que não queria ir e cadê os malditos 14 km que não chegavam! O José estava um “poquito” assustado e então o Renato perguntou “Falta muito para o corte?” José responde meio sem graça “Vocês queriam ficar no corte?” , o Renato “não por que?” e o José com um olhar de alívio responde “Porque já passamos do corte e uns 3 km antes de chegar eu já havia liberado o pessoal pelo rádio, porque tinha certeza que vcs conseguiriam” ! Nova sensação de vitória, o José acreditava em nós rsrs! E percebi que eu estava sendo babaca comigo mesma, porque todo mundo acreditava em mim, menos eu!

Resolvi minhas questões internas e daquele momento em diante, não coloquei mais em xeque minha capacidade. Eu ia terminar aquele negócio, era uma questão e honra, nem que dali eu fosse direto para o hospital ou para o sanatório.
Na minha vida, sempre que chego no fundo do poço, me baixa a Scarllet O’Hara do filme “E o vento levou” – é meio como aquela cena em que ela reúne forças e diz: “Com Deus por testemunha... com Deus por testemunha, não vão me derrotar. Eu vou sobreviver a isso. E quando passar, nunca mais sentirei fome! Nem eu nem minha família...”


A 2ª parte – Nunca subestime o Cruce!

Voltamos para uma trilha de Floresta e começamos a descer! Que lugar lindo, árvores enormes, nunca vi nada igual na vida. Eis que chegamos em um casal que também conhecemos no segundo dia, nós, então, deixamos de ser últimos e “perdemos” o José! Aquele trecho foi super lindo e tranquilo. Minha cabeça estava mais calma, e eu sabia que terminaria o Cruce, faltava pouco! A descida era íngreme, mas tão tranquila que pensei “O José se confundiu, graças a Deus” ! Parei para fazer xixi e eis que vejo sangue, logo pensei “Meu Deus estou fazendo xixi com sangue (Não é hipocondria, ok sou um pouco hipocondríaca, mas eu estava com infecção urinária 1 semana antes do cruce)”, mas não era xixi com sangue, simplesmente fiquei menstruada (10 dias antes do previsto). O stress foi tão grande que meu corpo entrou em colapso, os hormônios ficaram desequilibrados. E aí a explicação, eu tinha certeza que não surtaria no Cruce, mas surtei, desequilíbrio, insegurança, choro compulsivo, tava me achando uma fraca, mas na verdade eram meus hormônios enlouquecidos, eu não estava fraca, estava de TPM. Me “vesti” me sentindo vitoriosa novamente! Não só estava fazendo o Cruce, estava fazendo de tornozelo torcido e de  TPM intensa e fora de hora! O Renato perguntou “E agora, vc tem absorvente?” E eu me achando respondi “Não, agora eu agradeço à Deus estar de calça preta! Vamos nessa rapaz!” Tá, baixou a Loka, mas pelo menos a Loka vitoriosa ! Isso é o tipo de coisa que o El Cruce faz com você, uma virginiana menstruada no meio da floresta e nem aí para isso!

Pela estrada a fora, nós vamos bem sozinhos, era esse o clima, lálálálá! Até que a Floresta acaba, abre uma clareira eu olho para a esquerda e vejo a coisa mais linda que já vi em toda a minha vida, uma montanha de pedra, com uma geleira meio negra e meio azul e três quedas d’águas formadas pelo gelo que derretia, foi uma visão de tirar o fôlego. Como somos pequenos diante da natureza, como a natureza é perfeita, como Deus é perfeito! Gratidão e Plenitude!
Virei para pegar o celular na mochila para tirar fotos e, então, olhei para baixo, entre nós e aquela gelereira, havia um precipício de lá embaixo um rio raivoso passando. Olhei para o outro lado e vi que nosso caminho era seguir descendo pelas pedras, numa “mini single track” na beira do maior precipício que já vi em toda minha vida, uma pisada em falso, um escorregão, e adeus... Meu coração acelerou, minha respiração acelereou, adrenalina e medo tomaram conta do meu corpo, minhas pernas começaram a bambear e então pensei na minha filha. “O que estou fazendo aqui e com o Renato, nós dois nos arriscando e se acontecer alguma coisa? Eu não tenho direito de morrer nessa aventura e tirar da minha filha o direito de crescer com os pais ao lado dela, só porque eu queria me superar!” Sabem o que era essa voz? A minha total e plena auto-sabotagem, minhas crenças limitantes, minha crença de não merecimento, de incompetência, etc, todas as crenças adquiridas ao longo de uma vida, tomando de assalto minha mente, me colocando em pânico. Era a janela killer (Conceito do Dr. Agusto Cury) , quando minha mente estava prestes a entrar no chamado Circuito Fechado de memória, segundo o Dr. Cury, o pânico surge no momento em que nosso cérebro entra em looping (acionado por uma janela killer) e começa a trazer a tona só pensamentos e memórias ruins e neste momento vem o pânico e a pessoa paralisa. E então, eu falo mais uma vez o meu mantra “Onde existe medo, não existe amor!” incessantemente “Onde existe medo, não existe amor!”! Minhas pernas pararam de bambear (até porque o único risco que eu corria era causado por mim mesma, o pânico cega e tira o equilíbrio). E fui sentada de bunda, descendo as pedras, até que o Renato opta por passar por uma pedra meio que subindo para se distanciar do precipício e chega um rapaz da produção e grita, não suba, o melhor caminho é por aqui. Lição, a zona de conforto pode ser bem mais arriscada e difícil do que o caminho que parece mais arriscado! Fizemos a curva, uma single track, mais estreita ainda, mas sem pedras para “escalar”, até que passamos e chegamos no lugar seguro. Alívio, alegria, realização, e respiração normal!

A 3º Parte – mas não eram só 10km planito?

Quando vencemos o precipício, o Renato perguntou aos rapazes da produção e como será agora? O rapaz disse, agora é bem tranquilo são uns 10 km na floresta, bem plano. “Dá para correr?”,perguntei. “É, dá , sim” bem desanimado foi a resposta que recebi. O que imaginei, são os últimos km até o ponto em que pegaremos o barco e depois da travessia de barco mais uns 3km e pronto acabou o El Cruce!

10 km trotando, pensei, em no máximo 2 horas terminamos!  Hahahahahahahahahahahaha! (minha risada má, me sacaneando agora que tudo acabou). Um sabe de nada inocente bem grande para você senhorita! Entramos na tal da floresta, só lama, lama daquelas de afundar até metade da perna e não conseguir tirar o pé, lama daquelas que periga você perder o tênis. E além da lama, troncos gigantescos de árvores caídos no chão. Eram tão grandes que a maioria eu precisava dar a mão para subir, na lama, tínhamos que escolher o tronco que não afundava para passar, tipo aquelas provas do Faustão. E não, não dava para correr.

Fomos seguindo, o Renato perguntava “Tá com fome?” e eu “não” , “Você precisa comer”, “Eu não quero comer, quero chegar!” “Tá, mas para chegar, você precisa comer!” “Eu não vou comer”; dez minutos depois; “Acho que preciso de um gel” , “Você está branca e com o lábio roxo” “Acho que estou tonta”, “Come esse sal anda!”, “Obrigada”, “A partir de agora você vai comer todas as vezes que eu mandar, ouviu!” , “Unf, pode ser”! Lição: aprenda a escutar e se deixe ser cuidada de vez em quando, não somos os donos da razão, e teimosia e cabeça dura, só levam ao buraco!

Continuamos, em frente, chegamos próximos a dois casais, neste momento deu a loka no Renato e ele começou a querer ultrapassá-los a todo custo, e eu tava cansada, então fiquei para trás, não queria forçar a barra para passar a menina, porque o cara também estava deixando ela para trás e ela estava aparentemente machucada. E o Renato me olhava como quem diz “Anda” e eu pensava “ele tá doido”. Até que de repente, fui pular de um tronco para o outro e não olhei para cima, tinha um galho, meti minha cabeça com tudo, no meio do pulo. O Renato voltou e eu estava vendo passarinhos literalmente, fiquei tontinha e ele voltou! E eu no maior drama (virgem com ascendente em câncer e de TPM) “a culpa é sua, vc não tinha nada que ir na frente!”! Hoje percebo o quanto isso é ridículo e o quanto eu não posso fazer isso na vida. Sempre culpamos os outros e as circunstâncias pelos nossos erros e tropeços, mas precisamos assumir as nossas responsabilidades! Eu bati a cabeça, porque não prestei atenção, porque ao invés de focar no caminho, estava focada em criticar o Renato mentalmente por ele estar na minha frente! Nos relacionamentos, se percebemos a nossa responsabilidade e tirarmos o foco da crítica do outro e passarmos a focar no nosso comportamento, nas nossas ações, a chance de sermos mais feliz, mais realizados e de eliminarmos os conflitos é imensa! Lição: Faça a sua parte, foque no seu caminho, no seu comportamento, salve o seu relacionamento, salvando a si mesmo e entendendo que você é o único responsável pela sua vida, pelo seu caminho e pelos seus resultados, sejam eles bons ou ruins.

A Floresta era interminável, me sentia num pesadelo , era como se eu estivesse rodando num labirinto, tudo igual e sem perspectiva de fim. Passamos por uma equipe da produção e perguntamos quanto faltava para terminar a floresta , “Uns 2 km”! Ufa! Quase 3 horas depois, uma nova equipe da corrida. Olhei para o cara da organização e perguntei “Quanto falta?” e ele me responde “ Uns 2,5 km” eis que uma lágrima escorre, “Como assim???? eu caminhei por 3 horas e voltei 500m???????” Bem segui, não tinha o que fazer, mas surtei legal, minha cabeça estava em psicose total, queria demais sair dali.

Depois de um tempo, passo num lugar e tomo um escorregão e venho descendo de bunda, o Renato vê eu caindo, mas cai do mesmo jeito, logo o casal atrás a mesma coisa. Ao lado do lugar eu vejo um corredor chinês sentado e rindo de ladinho a cada escorregão.  O chinês tava machucado e resolveu parar para descansar no local da videocassetada e ficava rindo de cada um que caia, sem avisar... Pensei “Chinês sádico” e seguimos, passou um tempinho a dupla de chineses se aproximou, o Renato começou a conversar com eles e descobriu que o Chinêss Sádico estava lesionado e com dor, aí o Renato ofereceu um advil. O Chinês aceitou e como o Renato entregou dois comprimidos para o chinês com olhos assustados, voltei para explicar que era para tomar 1 só . Seguimos e falei para o Renato, na hora que você se apresentou depois de dar o remédio, eu deveria ter dito que o seu verdadeiro nome era “China Killer”! Esta piada boba, nos rendeu boas risadas. Durante o Cruce manter o bom humor e se divertir é essencial, especialmente quando os surtos estão constantes.

Quase no fim da Floresta uma ponte em cima de um rio com correnteza, a ponte era estreita, feita de tora de madeira e com apenas uma corda de segurança de cada lado, eu já não me importava mais, meus pânicos de altura, ponte e escaladas estavam vencidos. Ok mais ou menos vencidos. Perguntei para o carinha da produção o viria depois e ele me respondeu. “Mais uns 2 km e vocês chegam em Porto Alegre” eu tava tão doida que abri um olho do tamanho do mundo, o cara riu e disse “Porto Alegre é o nome do Porto, não é a cidade Brasileira”. Atravessei a ponte e aí entramos num caminho fácil, plano, sem grandes perigos, tranquilo, alternávamos caminhada com trotes.

Porto Alegre – A Câmara fria, PQP 

Chegamos enfim no Porto, não subimos na fronteira porque descobrimos que estava fechada por causa da chuva, glamour zero, hahahaha. Quando pensava no Cruce, me via cruzando uma fronteira daquelas de filme, me sentindo o máximo. De qualquer forma, o Porto foi um alívio, poder colocar uma segunda pele quente e seca era tudo o que eu precisava e o Renato ainda conseguiu comprar café quente na lojinha que tinha lá.  Que alívio.
Quando chegamos na fila para pegar o barco, chegaram o Marcelo e a Carol, igualmente hipotérmicos rsrs. Entramos no barco quentinho e seguimos para o último trecho da prova.

Enfim, a chegada - O Pórtico!  

Descemos do barco, naquele frio congelante e seguimos entre caminhada e trote pelo último trecho da prova, fomos encontrando pessoas tão fudidas quanto a gente que volta e meia encontrávamos pelo caminho ao longo de todo o Cruce, erámos o último batalhão. Até o Chinês sádico desistiu de desistir e estava lá, firme, forte e acho que um pouco alucinado com o remédio.

Eis que avistamos o pórtico, Eu, Renato, Marcelo e Carol, depois de todas as dificuldades, lesões e dores, enfim terminávamos juntos os quatro aquela prova insana e maldita. Quando cruzei o pórtico ao lado do Renato, eu não conseguia gritar, nem pular, nem celebrar, como imaginei que seria, eu senti um enorme alívio, lágrimas escorriam, lágrimas de alívio absoluto, dei um beijo nele e agradeci imensamente, porque sem ele eu não teria conseguido.

Sabe, sempre curti muito os pórticos de chegada, o glamour da vitória, mas no Cruce foi diferente, foi como deve ser a vida onde a emoção está em toda a jornada e a chegada é apenas mais um detalhe. Peguei uma Quilmes, torcendo para estivesse quente, porque o frio congelava meus ossos. Nunca uma cerveja foi tão merecida e apreciada...

É todo carnaval tem seu fim... Um ano de preparação, expectativa, três dias querendo ir embora e naquele momento o fim "finalmente" tinha chegado, confesso que sentia que de alguma forma eu sentiria falta daquilo tudo e que um dia repetiria aquela insanidade...


Por fim 

Sabe quando um filme acaba e enquanto passa o letreiro final, aparecem cenas continuando a história?! Bem o Cruce é assim, depois de passar o pórtico, ficamos horas esperando o barco final, que nos levaria em um percurso de quase uma hora até um Porto qualquer , para de lá pegarmos um ônibus por mais de 1 hora, para só então chegar ao hotel. O que é um pum para quem tá cagado? A essa altura eu já tinha começado a beber uma garrafa de vinho que compramos na chegada, dormi  no barco, ri muito no ônibus e quando descemos em Cerro, lá estava aquela mala enorme que tanto nos ajudou e ao mesmo tempo nos atazanou ao longo do percurso. O rapaz da organização conseguiu um táxi para a gente (porque ter que nadar mais 1 km com aquela mala, sem chance, sério mesmo, depois de 100 km vc não quer andar nem 100 metros). Quase meia noite, enfim, chegamos no hotel, todos já estavam lá. Aí sim bateu a emoção da chegada!

A primeira coisa que fiz foi tomar uma ducha bem quente, sabe a emoção que geralmente sentimos no Pórtico?! Então, foi o que senti quando entrei no chuveiro! Sensação de dever cumprido, “eu sou foda, eu posso, eu consigo o que eu quiser, meus amigos são foda, a endorfina é foda rsrs”.

Brincadeiras a parte, as três maiores lições do Cruce foram : devemos ser gratos a cada coisa que temos, nunca dei tanto valor a um café quente, uma roupa seca, um banho, uma cama, etc.; precisamos uns dos outros, sem o grupo maravilhoso que foi e especialmente sem o Renato, nada seria possível, por isso precisamos sempre nos permitir apoiar e principalmente (no meu caso) se deixar ser apoiado e ajudado; e por fim não existem desafios que não possam ser vencidos com a mente e o coração! 



Que o Amor seja nossa própria substância! 

Que nenhum limite nos defina! 

FIM

Meus agradecimentos mais do que especiais à minha amada coach Márcia Rosa Runners, aos #MR18 e ao Renato meu companheiro de Cruce e de Vida




segunda-feira, 6 de abril de 2015

El Cruce - Day 02!!

O Acampamento - Day1/Day2

Uma das loucuras do Cruce é acampar entre um dia e outro de prova. Eu adoro acampar, mas dormir em uma barraca depois de um esforço desses e no frio foi definitivamente uma das partes dispensáveis do Cruce. Antes da prova imaginávamos o acampamento como uma “farra” onde nos encontraríamos com o grupo e curtiríamos bastante. Aqui cabe um perfeito “sabe de nada inocente”. A galera que chegou antes, até deve ter curtido, mas a noite ali foi  igualmente sofrida para maioria que conversei. A barraca é espaçosa, mas é baixa e como eu estava com o joelho esquerdo todo esfolado e em carne viva e o tornozelo direito doendo horrores, entrar e sair daquela barraca era uma aventura a parte.

Resolvemos fazer uma massagem, US$35,00, para eu receber um carinho e afago por 30 minutos... O Renato acabou ficando com o massagista que faria em mim e se deu bem, a minha massagem foi literalmente um carinho de uns 20 minutos e depois a menina disse que eu poderia ficar ali na maca relaxando. Não me arrependo de ter feito a massagem, me arrependo de não ter aproveitado e dormido ali mesmo, pq a maca era mais confortável que o colchão inflável.

No acampamento tinha macarrão e uma típica Parrilla argentina, tudo delicioso, mas adivinhe se eu conseguia comer? Não! Meu corpo entrou em algum tipo de colapso e não aceitava comida, não é frescura não, comer me embrulhava o estômago.
Como tínhamos alugado uma barraca extra, nós colocamos as malas em uma para dormir na outra, porque o frio era tanto que eu preferi o “ronco” do Renato a dormir sozinha rsrs. Lá na barraca tomei meu “banho” com água termal e lenço umedecido, já tinha entrado no lago quando cheguei , mas mesmo se não tivesse, a chance de tomar um banho frio era zero. Aliais, confesso que achei que o que eu mais sentiria falta seria de banho, mas diante de tudo o quê vivi no Cruce, banho foi a última coisa que pensei.

Depois de um tira e põe das coisas na mala, arruma tudo, tralha demais (no próximo Cruce vou levar menos da metade das coisas), fui dormir com o tornozelo mega inchado e o medo do que seria no dia seguinte.

No curtição, no vinho, no diversão...



Olha o joelho (esta foto foi 1 semana depois da prova)


A Pré-largada – Por que eu fui inventar isso? Ou mudando o foco, companheirismo, cuidado e amizade salvam.

Acordei por volta de umas 4h30 da manhã com uma dor alucinante no quadril e no tornozelo, demorei a voltar a dormir, e de repente já era hora de levantar. 
Começou tudo de novo, tira as coisas da mala, troca de roupa naquele frio, guarda as coisas de novo, chama o Renato 500 vezes, pega a bandeja com o café da manhã (Louvei ao senhor ter café preto e tinha umas torradinhas quentinhas que obviamente não consegui comer) leva para a barraca. Enquanto o Renato arrumava a mala que de tão grande, todos perguntavam se estávamos escondendo um cadáver ali, eu estava sentada, pronta e preocupada na outra barraca, eu tentava disfarçar, mas meu tornozelo além de inchado, doía muito. 

Eis que chega a minha salvação, o Marcelo! Contextualizando, o Marcelo ( nerd phopho, que me lembra muito meu irmão de sangue, então já  adoro desde o dia em que conheci) torceu o tornozelo treinando em Bariloche antes do Cruce , as ordens médicas foram: “não vá!”, mas ele foi. Quando ele se machucou e, ainda, tinha a dúvida, eu e o Renato falamos para ele, você vai fazer essa porra nem que se seja carregado e vamos chegar juntos (e quando eu torci o meu tornozelo, essa imagem foi muito clara e aí foi a vez de dizer para mim mesma!) , ele foi várias vezes ao médico em Bariloche, fez exames, fez uma infiltração de corticoide, o Renato fez uma sessão nele de cura reconectiva, e ele foi para o Cruce.  Voltando à minha salvação, ele tinha uma faixa e enfaixou meu tornozelo igual o médico fez no dele. Com isso a dor diminuiu e ganhei uns 60% mais de estabilidade (só caí uma vez no segundo dia). Quem tem amigos não precisa nem do posto médico rsrs. 

Este é o Marcelo  (Eu realmente tinha que publicar a foto dele, porque segundo o próprio eu teria mais ibope rsrs) 

A Largada PNE

Depois de tudo arrumado, mala “despachada”, fomos para a largada do último pelotão, numa friaca daquelas. Estamos lá esperando para largar, Eu, Renato, Marcelo e Carol, até que o Marcelo solta “Essa é a largada PNE!” Sério, acho que fiquei uns dez minutos rindo sem parar, porque todos que estavam ali apresentavam alguma lesão, os que não estavam mancos tinham uma cara de “Por que, meu Deus, por quê? Na saída do pórtico todos se arrastando igual mortos vivos, nunca vi uma largada assim na vida, mas mesmo com dor eu não conseguia parar de rir. 

Aqui uma lição muito importante, esta na verdade eu não aprendi com a experiência, meio que nasceu comigo, rir, gargalhar da própria dor. A gargalhada me dá uma nova perspectiva, me faz esquecer o sofrimento e ver o lado engraçado e aí a mente se abre para buscar solução. 


A parte fácil do percurso – vontade de correr

Os primeiros 8km do segundo dia eram bem tranquilos, a vontade de correr era grande, mas as limitações atrapalhavam. Fomos junto com a Carol e o Marcelo, ele andando numa velocidade insana, eu tentando puxar papo com ele sem muito sucesso e a Carol e o Renato mais atrás, no maior papo, como se tivessem numa caminhada no eixão do lazer. Depois de um esporro do Marcelo em geral, os dois apertaram o passo e seguimos juntos até que eu e a Carol pararmos para fazer xixi (a contragosto do Marcelo que nessa altura não tinha mais nada de nerd phopho), o Renato enrolou um pouco e logo o Marcelo abriu “levando” a Carol com ele.




Eu e o Renato seguimos caminhando rápido, sem parar, mas tranquilos. Encontramos um rapaz que estava sozinho, ele havia se machucado e a dupla dele foi na frente. Fiquei morrendo de pena, porque se fazer essa prova acompanhado é um desafio mental fora da realidade, imagina fazer lesionado e sozinho.
Eis nosso amigo!


 A subida em Caracol – vontade de esganar os argentinos.

O Renato tem uma mania que me irrita um pouco, ou melhor muito, ele pergunta para cada pessoa que encontra “ o quê está por vir” (falo no presente, porque isso não se restringe ao Cruce). Bem, a cada pessoa da organização da prova que encontrávamos em alguns pontos ele fazia uma série de questionamentos sobre a dificuldade do percurso adiante, e a grande maioria mentia “é ‘planito’, ou vem uma subida forte, mas rápida e logo a ‘barrada’*” (*descida).  Depois de andar bastante numa floresta, destas que só vemos em filme, com árvores enormes e a sensação de que estamos constantemente sendo observados, chegamos num ponto aberto e aí começou a subida em caracol. É uma subida em trilha de morro, com curvas em que você não vê adiante e tem sempre a esperança que depois da curva ela vai acabar, mas ela não acaba nunca.  A essa altura, eu nem lembrava mais que tinha tornozelo, as coxas ardiam, o ar faltava, mas a vontade de chegar era muita, então continuávamos. E no fim da subida uma vista incrivelmente maravilhosa! E mais uma lição que saiu da teoria para a prática, quanto mais difícil o percurso, mais bonita é a vista... E isso se aplica muito bem na vida...




A barrada em caracol – Clarita e a segurança

Depois de toda subida íngreme, vem logo uma barrada igualmente ingríme. Sério mesmo, se posso dar um conselho para quem pretende fazer essa prova (ressalto aqui que é um conselho leigo apenas, porque em época em que profissional não habilitado quer ser educador físico, todo o cuidado no que falamos é pouco. Então segue o meu “conselho”, mas não o façam sem antes consultar o seu treinador) é treinem muitaaaaa descida em terrenos inóspitos, como eu me engajei nos treinos muito em cima da hora, eu evitava treinar forte as descidas com medo de me lesionar e acreditava que o grande mal do Cruce eram as subidas,  mas saber correr em descida é fundamental para essa prova. Obviamente, meu tombo do segundo dia foi aí, apesar do cuidado, na verdade acho que é o excesso de cuidado que causa isso, porque acaba levando a insegurança e a insegurança desequilibra.

De repente, chega um corredor super ágil da organização e começa a me “ensinar” a descer naquele terreno e junto com ele um Golden retriever lindo, o cahorro às vezes parava na beira do precipício e me olhava como quem diz passa pelo outro lado, porque aqui é perigoso.  Em seguida apareceu o rapaz que havíamos encontrado seguindo sozinho lá no começo da corrida, ele vinha feliz e seguro e logo descobrimos que o cachorro havia encontrado com ele no meio da floresta e que começou a segui-lo, passando a ser sua dupla.  Ele batizou o cão de Clarita. Era impressionante como ele estava diferente de quando o encontramos, a segurança dele e a alegria eram outras.
Depois desses encontros, comecei a aplicar a técnica na descida e fui ganhando segurança, o que tornou tudo mais fácil para mim. Lição: segurança no agir é tudo na vida.

Outra Floresta – O frio

 Entramos em uma outra floresta interminável... Sério, fiquei com um pouco de trauma de florestas, são cenários muito iguais, não temos muita noção de onde estamos indo e o tempo parece não passar. É um grande desafio psicológico. Psicológico mesmo, no mais literal sentido da palavra, porque o percurso não era difícil, mas esgotou minha cabeça.  
Íamos bem, mas as reclamações de frio do Renato aumentavam. Comecei a ficar preocupada, porque eu já não sentia frio a tempos e ele vinha falando do frio o percurso inteiro e parecia que piorava. Ele foi muito guerreiro, hoje sei que ele teve uma pré hipotermia (se é que isto existe) , mas ele correu um risco muito sério. O que acontece é que ele transpira muito e por dentro da roupa e aí como fica todo molhado não pode tirar o casaco, o que o faz suar mais, e a medida que o vento bate o suor fica gelado, é como se ele tivesse feito o percurso com um ar condicionado grudado nas costas.
Aqui uma dica de segurança, levem sempre o Polar (vem 1 no kit) e o casaco impermeável na mochila, além do que se está vestindo.  O frio mata mesmo, e numa prova como essa em que tudo pode acontecer estes dois se tornam itens de segurança indispensáveis.

O ponto de Corte – amargo arrependimento

Havia um ponto de corte no km 32 onde quem não chegasse até determinado horário por questões de segurança seria levado por um transporte da organização até próximo da linha chegada. Diante das lesões e dores e do meu tornozelo e frio, resolvemos que ficaríamos no ponto de corte. Pelo frio era melhor que tivéssemos seguindo andando, porque paramos na beira de um lago e fomos levado de lancha até um trecho. O visual no lago era lindo, em volta as montanhas, aquela imensidão. Mas o Renato se tremia inteiro, porque a lancha ia muito rápido e ventava demais. E neste momento, eis que um dos meninos da organização que estavam na lancha tira um saquinho plástico com vários rolinhos de jamon crudo com queijo (presunto cru com queijo), ele gentilmente nos oferece e nós caraduramente aceitamos sem pestanejar. Sério, foi a melhor coisa que nos aconteceu!

A lancha nos deixou em um cais, onde encontramos alguns colegas da largada PNE. Tinha uma construção abandonada, eu e o Renato entramos lá e trocamos a roupa, colocando a blusa quente por baixo. E ficamos esperando o transporte chegar. Nossa expectativa: uma van ou um ônibus quentinho. A realidade: uma caminhonete mais velha que eu, caindo aos pedaços, com os vidros quebrados e lugar para a penas 4 pessoas na cabine. O Renato, mesmo hipotérmico, sugeriu que as mulheres fossem na cabine e ele foi atrás na caçamba. Quando aquele carro, naquele estado, com a caçamba cheia, entrou numa estrada de pista única, mas que era de mão e contra-mão, na beira de um precipício, eu comecei a rezar e o meu único desejo era de voltar no tempo e ter seguido a pé. Fiquei muito tensa, não apenas pelo perigo do transporte, mas porque sabia que o Renato não estava bem.  

No caminho avistei o Marcelo e a Carol seguindo andando e me arrependi amargamente de estar naquela caminhonete. Grande lição, as vezes optamos pelo mais fácil acreditando que estamos nos poupando e acabamos nos metendo numa enrascada maior ainda.

Aqui a foto da dupla guerreira e motivo de inspiração Carol e Marcelo, chegando nos 42km


A chegada – imigração congelante

Fomos deixados num ponto, onde deveríamos seguir até o pórtico da chegada, cruzamos a linha de chegada, ter ficado no ponto de corte foi bom do ponto de vista do desgaste físico, mas ferrou meu psicológico, não vivi a chegada como deveria e a partir daí foi ladeira abaixo...



Lá nos deram uma garrafa d’água e nos mandaram seguir diretamente para a imigração, antes de qualquer coisa. Um vento forte, frio, cansaço e um formulário chato para preencher, que eu logicamente fiz o favor de errar e tive que começar tudo de novo... Quando fui buscar a mala, um rapaz da organização perguntou se eu queria ajuda para carregar a mochila mala que eu levava e eu disse que não e pedi que ele ajudasse o Renato, acho que o cara se arrependeu um pousco rsrs, porque o Renato carregava a mala imensa.

O acampamento 2 

E se eu achei o acampamento 01 frio, aqui cabe um novo “sabe de nada inocente”, o acampamento 02 era um filme de terror. O lugar chamado Pampa Linda deveria ser chamado de Pampa Frozen, era um vale cercado de montanhas com neve e pelo vulcão.  As barracas estavam ao lado de um rio de desgelo e a estrutura de banheiro e comidas ficava do outro lado, bem longe.



Trocamos a roupa bem rápido e fomos comer, por incrível que pareça a única coisa que consegui comer foi uma linguiça de chorizo com pão. O Renato sentou para comer com um prato que alimentaria uma família inteira e se tremendo todinho. Voltamos para  a barraca para arrumar as coisas e ir dormir, resolvi ir ao banheiro de novo. Estava tão cansada que saí sem óculos e já havia escurecido, na ida segui uma menina, na volta eu não sabia para onde ir, não enxergava direito e tinha vontade de chorar. Lição, quando a mente abala, tudo vira sofrimento, as forças somem.

Voltei para a barraca, deitei para dormir com o Renato ainda se arrumando, virei para o lado fechei meus olhos e apaguei. Naquele momento eu só queria que aquilo acabasse logo, não estava feliz, não estava realizada e não me sentia vitoriosa...

 To be continued ...